If the world’s at large, why should I remain?
Walked away to another plan
Gonna find another place, maybe one I can stand
De carro, a viagem Mumbai-Pune dá por volta de 3 horas. As paisagens e as pessoas à minha volta me certificaram constantemente que não estava mais em casa. O mantra da AIESEC “sair da zona de conforto” se realizava. Mas o sentimento era mais melancólico do que animador. Lembro que tive uma sensação parecida no dia de matrícula em Ciências Sociais. Pra mim ainda é um mistério o motivo desse sentimento pintar de vez em quando.
O motorista de táxi me deixou na entrada do hotel e me cobrou o preço correto, assim como Joy colocou no email de instruções de chegada. Cerca de 1000 rúpias (~16 dólares na época). Depois ouvi histórias de motoristas que cobraram preços suuper abusivos.
Cheguei no hotel e informei que era um recém contratado da TCS. Porém, aparentemente, não havia uma reserva para mim. Mostrei o email da Joy e o recepcionista ficou algum tempo tentando entrar em contato com ela. Depois de 30 minutos, mais ou menos, consegui fazer check-in no hotel (ufa!). Outro dia, quando me encontrei com a Joy, já na TCS, ela me disse que houve algum erro, não era para eu ficar naquele hotel.
Apesar dos sustos, tudo bem. Cheguei no quarto. Era um quarto bastante decente. Tinha televisão, um banheiro com uma boa ducha e uma cama confortável. Acho que a vista já não era tão agradável. Primeira coisa que fiz: ligar para meus pais. Vou reconfortante ouvir suas vozes. Apesar de estar do outro lado do mundo, não estava sozinho.
O hotel ficava numa localização engraçada, ficava acima da loja Reliance Digital e sua fachada tornava confusa saber onde que era a entrada, que era na lateral da loja. Infelizmente não tirei foto da fachada :/
Estava bem cansado e lembro de dormir não muito tempo depois de chegar no quarto. Quando acordei, mais já à noite, estava bem mais tranquilo. Dou um passo para entender que a experiência na Índia exigiria passar por sentimentos extremos, às vezes em intervalos não muito grandes de tempo. No livro “Os Indianos” de Florência Costa, ela descreve muito bem esse infindável ciclo de emoções que vivi no meu tempo lá:
“Costuma-se dizer na Índia que os estrangeiros experimentam um ciclo de fortes emoções enquanto vivem no país. A primeira fase é de tremendo entusiasmo: tudo na Índia parece maravilhoso. Na segunda, nem tudo é maravilhoso. Na terceira, tudo é abominável. Não necessariamente as fases acontecem nessa ordem.”
Com certeza a Índia não pode ser qualificada de forma absoluta. Maravilhosa ou terrível. Tudo no país é demasiadamente complexo e qualquer forma de simplificação falha terrivelmente em se aproximar da realidade. Passando 10 meses lá, pude ao menos adquirir capacidade de reconhecer essa complexidade.
Mesmo que estivesse bem mais tranquilo, ainda estava bastante assustado. Pune, como boa parte da Índia, é bastante intensa. Bem barulhenta, um tanto poluída, muitas vezes com uma profusão de cheiros e com um trânsito quase sempre bastante caótico. Com efeito, uma intensa sinestesia. Diz o paulistano… Bem, verdade que São Paulo poderia caber perfeitamente nessa descrição, porém todas essas características parecem se exacerbar nas metrópoles indianas. Atravessar a rua já era um desafio significativo. Para superar esse medo, então, procurei me contentar e celebrar metalmente a cada desafio cotidiano realizado, como pedir comida ou interagir com algum local.
Sobre comida (e medo), lembro de no começo estar com um cagaço de ter a famosa infecção intestinal. Então, por vários dias, procurei viver a base de miojo, fast food e uma dose diária de omeprazol para garantir (não se automediquem, crianças). Lembro de até ter pedido um jantar no hotel, mas não havia gostado da comida e deixei mais da metade da refeição no prato. E em frente do hotel havia um Domino’s. Comida ocidental! Obviamente, comi algumas (talvez várias) vezes lá. E, apesar de penar para conseguir entender e me fazer entender no atendimento, conseguia fazer meus pedidos na pizzaria.
No dia seguinte à chegada, até como um modo de forçar meu aculturamento com o lugar, resolvi passear no entorno do hotel, no bairro de Hinjewadi, a pé. E num exercício que iria repetir muitas outras vezes, capturei suas paisagens como o único souvenir que ousei trazer de lá. Era o início de minha jornada com minha nova companheira, a Canon Powershot SX520.
And we’ll all float on, okay
And we’ll all float on, okay
And we’ll all float on, okay
And we’ll all float on, alright
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