Oh, here comes trouble
Put your helmet on, we’ll be headed for a fall
Yeah, the whole thing’s gonna blow
Minha partida era às 3h30 da manhã. Não dormi praticamente nada nessa noite. O voo entre São Paulo e Addis Ababa durou 12 horas e 38 minutos. A conexão com Mumbai, seriam mais 5 horas e 10 minutos. Após a estranheza da minha primeira decolagem, fui acostumando estar no céu. E o voo foi bem tranquilo, não lembro de muitas turbulências. Na verdade, estava tão chato que eu cheguei a torcer por alguma para dar um pouco de emoção. No mais, consegui pegar no sono uma boa parte do tempo com algumas (incômodas) interrupções para refeições.
Chegando em Addis Ababa, minha conexão para Mumbai iria demorar uma hora e meia para decolar. No entanto, ao desembarcar, um funcionário da linha aérea estava instruindo a quem fosse ir para Mumbai já se encaminhar para embarque no avião. Fiquei confuso, mostrei meu cartão de embarque. Ele confirmou para seguir o embarque e embarquei.
No avião para Mumbai, senti que realmente não estava mais no Brasil. As pessoas eram visivelmente bem diferentes dos meus conterrâneos. As vestimentas eram o que mais me chamavam atenção. Mais além disso, me chamava a atenção também que as coisas já não pareciam muito mais super organizadas. Parecia que tanto os funcionários quanto os passageiros estavam um tanto confusos.
De toda forma, achei meu assento e esperei a decolagem. Mas para minha surpresa, o mesmo assento estava reservado para outra passageira, vejam só. Junto com uma funcionária, a passageira me pediu gentilmente para que eu mudasse de assento. O que eu fiz sem nenhuma hesitação. Foi bem estranho, porque estávamos prestes a decolar. (uma parte da minha memória diz que tive que mudar de assento mais uma vez, pois também já tinha dono, mas aqui já tenho menos certeza se isso aconteceu).
Essa passagem me lembrou de um livro que li no mesmo ano, quando estava começando a apostar na Índia como destino: The Hotel on the Roof of the World: Five Years in Tibet de Alec le Sueur. É um divertido livro de um britânico que conta histórias e perrengues que viveu como gerente de hotel no Tibet e, dentre elas, do próprio voo para o Tibet. Foi só depois que pensei que poderia ter pego o voo errado.
De qualquer forma, consegui viajar sentado e aterrissar tranquilamente em solo indiano. Estou na Índia. E minha primeira impressão foi fantástica. O aeroporto de Mumbai era belíssimo. O nervosismo e apreensão de eu estar indo morar em um país de situação super precária estava sendo substituído por um enorme otimismo sobre o que iria encontrar lá e que era longe de ser aquele país pobre que as mídias pintavam.
Depois de andar pelos deslumbrantes corredores do aeroporto, chegou a hora de passar pela imigração. Mais um momento para ficar confuso. Vi que algumas pessoas preenchiam uma ficha que ficava em alguns balcões. Nesse tempo de confusão, um indiano me aborda, mas não consigo entender o que ele fala. Será que meu inglês está tão ruim assim? Penso que sim. Mas consigo pegar que ele quer me ajudar a atravessar a imigração. Me espanto, como são solícitos! Ele me instrui que também devo preencher a ficha e depois me direcionar aos guichês e um agente irá me liberar para passar e, assim, entrar no país. E assim faço.
Depois que passo a imigração, ele volta a me abordar e me cobra pelo serviço prestado. Sim, serviço prestado. Ele não estava me fazendo uma gentileza. Eu nem tinha trocado o dinheiro ainda. Eu literalmente acabei de entrar no país. Acuado, dei 20 dólares para ele. Depois fui entender que na Índia isso era uma boa grana.
E essa foi minha primeira lição sobre a Índia (seja bem vindo), mas que pode servir para outros lugares tranquilamente. Aquele otimismo foi começando a dar lugar novamente para o nervosismo e apreensão. Mas tudo bem, consegui entrar no país, então o básico estou conseguindo fazer certo. Estou conseguindo me virar sozinho. Acho. Outras lições, mas sobre a AIESEC, aprenderia em seguida.
Na AIESEC, enquanto intercambistas, somos recebidos pelo escritório local ao chegar no país. Contudo, como entrei por Mumbai, pegaria um táxi que já estaria agendado para mim com destino ao hotel em Pune, onde ficaria hospedado nas duas primeiras semanas do intercâmbio. E no hotel, a AIESEC local me recepcionaria e realizaria atividades de integração e aculturamento. Segundo as instruções encaminhadas por email pela minha host da TCS, o motorista do táxi estaria segurando uma placa com meu nome. Como cheguei antes do previsto, fazia sentido eu não ver a placa com meu nome na área de desembarque, então comprei uma coca e esperei até a hora prevista. Esperei. Passou a hora e nada da plaquinha com meu nome. Entendi que não teria. Os blogueiros da 360meridianos já haviam descrito alguma coisa parecida na recepção deles. Também lembrei quando recepcionei um intercambista pela AIESEC no Brasil. Ele me aconselhou a não desenvolver nenhuma expectativa, assim, minhas chances de decepção eram nulas.
Tudo bem, achei a empresa de táxi mencionada no email e conversei com o funcionário. Não lembro muito bem se entendia exatamente o que ele falava, acho que não, mas entrei no táxi com outros passageiros. E seguimos viagem. Destino: Pune.
Foi só sair do aeroporto para que meu otimismo sobre o nível de pobreza do país se esvaísse de vez. A paisagem ainda ao redor do aeroporto denunciava em letras garrafais que muita gente lá vivia em situação de extrema pobreza. Esse foi o sentimento. Começa a me abater uma sensação de arrependimento. Talvez cometi um grande erro. Sentia que me alistei para uma coisa que não sabia ou nem queria saber de verdade como realmente iria ser. Talvez tivesse cometido o maior erro da minha vida. O que eu fiz, meu Deus?
Coolkau - Powered by hugo and Hugo Split Gallery theme (inspired by Hugo Split Theme and Split Template by One Page Love)