Os acontecimentos da minha última viagem não tiveram tanto impacto nos meus planos de viajar Índia afora. Mas talvez me fizeram questionar o quanto eu estaria preparado para viajar sozinho em um país tão diferente do Brasil e de tudo que eu conhecia antes. Sem contar que era eu, né? Aquele que sempre andava distraído das coisas, que se perdia tão fácil quanto a Dory. Eu, que nunca tinha saído do estado de São Paulo. Que mal conhecia a cidade de São Paulo. Como EU conseguiria me virar sozinho nessa terra tão desconhecida e aparentemente não tão amigável? Mal tinha saído de baixo das saias da minha mãe e do colo do meu pai. Que sempre tinha alguns amigos mais velhos que conduziam os rolês. Eu estava pronto? Nas outras viagens que fiz aqui, mesmo que tivesse mais responsabilidade sobre mim e minhas coisas do que antes, estava com amigos que me davam alguma segurança caso algo desse errado. Mesmo com uma vontade enorme de me aventurar nessa curiosa e atraente loucura chamada Índia, estava muito inseguro se conseguiria me virar sozinho nesse país. Mal sabia quais eram as línguas mais populares desse lugar. Bem, podemos fazer um teste antes, né? Experimentar colocar os pés primeiro. Ficar no raso, perto da areia. Antes de mergulhar de cabeça nesse oceano desconhecido.
O teste? Cavernas. Cavernas? Cavernas milenares! Sim, em Maharashtra mesmo, não muito longe de casa. Não era uma viagem muito longa e parecia ser bem interessante. Amigos me recomendaram esse passeio que se combinava perfeitamente com meu interesse em História que aumentou consideravelmente após a leitura do livro Sapiens. E que cavernas são essas? São na verdade dois conjuntos distintos de cavernas que podemos visitar a partir da mesma cidade, Aurangabad. São as Ajanta e Ellora caves.
E sim, o plano era ir sozinho. Afinal, teria que testar se realmente estaria pronto para fazer o mochilão sozinho pela Índia. Além de também estar cansado de organizar e negociar as viagens com os outros, sendo que nos perrengues ia no cada um por si. Pois bem, peguei um final de semana. Dois dias. Um para visitar Ajanta e outro para Ellora. 16 de julho de 2016 para Ajanta e 17 de julho de 2016 para Ellora. Chegaria bem cedo no dia 16 para Ajanta, porque realmente parece que é muita coisa para se ver. Toma-se um dia inteiro de fato. E outro dia estaria totalmente reservado para Ellora.
Para o trajeto de Pune para Aurangabad resolvi pegar um ônibus do serviço público M.S.R.T.C. Consegui reservar pela internet mesmo. Bem prático até. Ele sairia às 5 horas da manhã da rodoviária Shivaji Nagar. A viagem de 237 Km duraria cerca de 4 horas e meia. Chegaria mais ou menos às 10h30 no hotel para fazer o check-in e já partir para Ajanta. Foi meio difícil achar um hotel que aceitasse estrangeiros. Mas achei. Pelo menos foi o que pensei.
São as primeiras horas do dia 16 de julho e estou pegando um tuk-tuk para a rodoviária com a mochila que arrumei no dia anterior. Levo comigo algumas poucas roupas e minha câmera. Afinal, comprei especialmente para fotografar nas minhas viagens e ainda a usei pouco para o tanto que já fiquei neste país. Aparentemente tudo certo, estou em cima da hora, mas chego na rodoviária ainda dentro do tempo para embarcar. Mas em que raios de plataforma devo embarcar? Qual é o meu ônibus? Muita informação não está no alfabeto latino. Deve ser marathi. Provavelmente. Não consigo entender nem os números. Tudo bem, o primeiro desafio é manter a calma. Começo a perguntar e aparentemente acho o ônibus. Ele é bem mais simples do que tinha imaginado, e nem tinha imaginado grandes coisas. É praticamente idêntico aos ônibus intraurbanos que vejo frequentemente em Pune. Mas tudo bem, já foi ótimo ter achado o ônibus.
Como diria na comunidade AIESEC, agora sim estou totalmente fora da minha zona de conforto. Acredito que não tenha pessoas aqui nesse ônibus que falem inglês. O ônibus começa a rodar na hora prevista. Estou animado. Acho que isso realmente pode dar certo. Quem diria, hein? Vejo uma pessoa passar de passageiro a passageiro com uma maquininha. Como nos ônibus públicos de Pune, cobrando passagem. Penso: que estranho, eu comprei a minha antecipadamente. Ele se aproxima de mim e fala algo que não entendo. Tento mostrar minha passagem. Ele tenta dizer algumas coisas para mim, mas não entendo nada. Após algum momento ele parece desistir e me deixa. Aqui começo a pensar que talvez tenha pegado o ônibus errado. O ônibus faz muitas paradas. Mas ele se dirige a Aurangabad pelo que vejo no GPS do Google Maps.
Após uma viagem mais longa do que tinha previsto, estou em Aurangabad. Também estou um pouco desorientado, mas consigo achar o caminho para o hotel e chego até ele. Vou fazer o check-in na recepção. O hotel é simples, mas me parece ok. Não vou ficar muito tempo aqui mesmo. Bem, para escrever este post não estava me lembrando como se deu exatamente a confusão do check-in, mas recuperei o review da minha estadia no hotel e que diz o suficiente:
“You have rated 1 / 5: The only thing good about it is the location. At first they denied my check in just because I’m a foreigner which it’s in nowhere in the website of the hotel. After 3 hours of discussion if then *** I was finally able to check in.”
Basicamente, demorei quase 3 horas para fazer o check-in porque eu era estrangeiro e eles não queriam me aceitar. Após entrar em contato com a plataforma que fiz a reserva, pedir para o André em KP enviar fotos dos documentos do meu visto e muita discussão, eles finalmente liberaram meu check-in.
Realmente o teste começou mais difícil do que eu pensava, mas vamos lá. Já tinha perdido muito tempo com a viagem e com essa confusão do check-in. Estou cansado e tento descansar um pouco no quarto comendo uma deliciosa batata chips antes de partir para Ajanta. Depois desse descanso, mais para a tarde, vou rumo a Ajanta, ver as cavernas!
Para isso, vou até a rodoviária, que não é muito longe. (único ponto positivo do hotel, segundo meu review). E lá, novamente, tenho a missão de descobrir qual o ônibus que vai para lá. De alguma forma eu descubro. E a cena que vejo é, pelos meus olhos, de um verdadeiro caos. As pessoas correndo para entrar no ônibus de forma totalmente caótica, inclusive pelas janelas. Sim, tinham rapazes entrando no ônibus pela janela. Fico um pouco em choque. Não lembro dos detalhes, mas de alguma forma consigo pegar o ônibus de boas apesar do susto. Se comparar, não é tão diferente de pegar a linha vermelha do metrô em São Paulo no horário de pico.
A viagem demora um pouco, cerca de 2h30. Mas tudo corre bem. Chego até o sítio das cavernas, mas para minha infelicidade, a visitação já estava encerrada. Consigo, pelo menos, visitar o museu que até é bem equipado, mas não tiro nenhuma foto.
Volto para o hotel e vejo onde vou jantar. A cidade não é muito bonita. Mas pesquiso pelo Google Maps algum restaurante perto e que fosse bem avaliado. Eis que encontro um restaurante maravilhoso chamado Kareem’s. Lá fui muito bem atendido e comi o butter chicken mais delicioso da minha vida. Fico com água na boca só de lembrar. Além de muito saboroso, a porção é super bem servida e até levo parte de volta para o hotel para virar o café-da-manhã do dia seguinte.
No dia seguinte, acordo de manhã e me arrumo para ir para Ellora. Dessa vez tem que dar certo. Apesar da confusão no dia anterior com o check-in, me dou bem com o staff do hotel. Vou novamente para a rodoviária e dessa vez pego o ônibus para Ellora, agora já metalmente preparado para o caos que encontraria no terminal rodoviário. Chego sem sustos ao sítio arqueológico. Apesar de ter pesquisado sobre o lugar e ouvir o relato dos meus amigos, não fazia ideia da grandiosidade e encantamento das esculturas e do sítio como um todo. Realmente não estava preparado para aquilo.
Em 2002, o governo indiano lançou uma campanha internacional para promover o turismo no país. A campanha tinha como mote: “Incredible India” (Índia Inacreditável) e até hoje a frase é ecoada para expressar um cenário turístico tão surreal que aparenta ser impossível de existir. Nessa viagem, essa frase, Incredible India, começou a fazer muito sentido para mim.
As Ellora Caves são um conjunto arqueológico que conta com um total de 34 cavernas que se estendem por uma fachada de 2 km de rochas esculpidas que datam de 600–1000 D.C. É absolutamente fantástico e simplesmente incrível. Literalmente inacreditável. Sem exagero, qualquer combinação de palavras ou mesmo outras fotos que tirasse não fariam jus em expressar o sentimento de encantamento que tive com o lugar. É clichê, mas de verdade, somente estando no lugar para compreender sua grandiosidade e ficar maravilhado com o nível e quantidade de detalhes que adornam as cavernas. O destaque, sem dúvida nenhuma, vai para a caverna de número 16. Ela é simplesmente um templo de mais de 32 metros esculpido a partir de uma única rocha, tornando-a maior escavação do mundo neste sentido. Acredita-se que o templo Kailasa começou a ser construído no século VIII e demorou cerca de 200 anos para ser completado. Como eu disse, inacreditável.
Além das cavernas, também visitei um templo em funcionamento no entorno do sítio onde recebi uma espécie de benção (?). Não entendi direito, dentro dele passei por um lugar onde me fizeram uma marcação na testa com tinta. Foi muito rápido. Na volta para o hotel também consegui passar por um forte que tinha uma torre enorme. Era o Forte Daulatabad. Tinha bastante gente lá também e ali tive minha primeira experiência como popstar na Índia. As pessoas me pediam para tirar foto com eles. Por que? Porque eu era diferente e não era de lá, e isso parecia fantástico para eles. Inevitavelmente, eu me fascinei por esse outro monumento, muito grandioso e muito antigo também. Era, novamente, incrível como lá meio que tropeçamos em obras históricas monumentais.
Depois dessa maravilhosa experiência faço o check-out e volto para KP. Parece que tudo valeu a pena, apesar de tudo. Esse negócio de mochilão pela Índia parece ser uma boa mesmo. E não é que eu consigo me virar? Bem, o tempo que antes parecia se arrastar, subitamente desapareceu. Vou ficar sem projeto na TCS e provavelmente vou ter que voltar para o Brasil. Meu tempo aqui está acabando. Vamos fazer esse mochilão acontecer então!
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