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No. 16 - Notas sobre o post no. 15

Entendo que cabe aqui fazer alguns esclarecimentos sobre o post anterior “No. 15 - Da sujeição do homem”. De início, é preciso fazer entender minha intenção com o título, que também poderia se chamar “Das sujeições dos homens”. Com efeito, este título pode ser considerado uma tentativa (grosseira talvez) de fazer alusão à uma versão foucaultiana e “inversa” da frase “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Foucaultiana porque recorro ao conceito de sujeição de Foucault (1995) para explicar como nos tornamos homens em nossa sociedade. Homens no sentido de gênero mesmo, o processo de masculinização. Acho que o conceito é útil, especialmente para entender este processo, pois ele compreende que a sujeição é mais que apenas uma imposição de fora (sociedade) para o indivíduo. Ou seja, a socialização impõe que nós, indivíduos, sejamos sujeitos à uma série de normas culturais e morais, o que também nos moldam internamente, de tal maneira que participa ativamente na construção da nossa identidade. Assim, essa sujeição também é produtiva, pois produz estruturas mentais que definem como pensamos, como agimos. Essa forma de poder da sociedade cria, então, uma verdade sobre nós mesmos. Isso, para Foucault, seria uma forma específica de poder, não muito antiga, das sociedades ditas ocidentais.

Para mim, a masculinização, o tornar-se homem, em nossa sociedade pode ser compreendido utilizando esse conceito, pois como bem sabemos, os gêneros masculinos e femininos são condutas de agir em sociedade que tem pouco grau de flexibilidade e com uma alta estabilidade ao longo da história, impostos para nós desde antes do nosso nascimento. Essa forma de atribuir uma conduta específica para os indivíduos é uma forma de sujeição, que por sua vez produz identidades. No caso da identidade masculina, podemos sem esforço delinear um padrão claro de comportamentos e condutas que destoam da identidade feminina. Difícil algum menino ter crescido sem ter ouvido frases como “homem não chora” ou “seja um homem!”. Veja o documentário “The mask you live in”.

Entendo também que seja um processo em que o sujeito homem seja vítima, mas também algoz da perpetuação dessa identidade e de suas implicações.

Contudo, é importante ressaltar que há ainda uma variabilidade importante dentro dessa sujeição do homem, e por isso o post também poderia se chamar “Das sujeições dos homens”. Parte dessa variabilidade a qual me refiro corresponde a outros marcadores sociais da diferença, como a raça. Entendo que a masculinização branca é diferente da masculinização negra, em especial em sociedades onde a diáspora africana foi destino ou ainda de nações colonizadas. Na escola, por exemplo, vemos que as condutas esperadas de meninos brancos e meninos negros são diferentes, tanto entre os professores quanto entre seus pares. Toledo e Carvalho (2018), por exemplo, verificam que em uma turma de uma escola pública na cidade de Sâo Paulo, meninos negros são poscionados na base da hierarquia social da turma. Essa hierarquia interna tem reflexos tanto nas interações dos professores com esses meninos, quanto nas interações com seus colegas. Mais ainda, as autoras mostram claramente como um desses meninos negros assume para si tal posição na hierarquia social e admite essa verdade para si, que é imposta a ele:

- Pesquisadora: Eu já vi o professor reclamando que você fala bastante.

- João: Isso também é verdade.

- Pesquisadora: E você concorda?

- João: Concordo.

- Pesquisadora: Você não acha que você fala o mesmo tanto que os outros meninos?

- João: Não. Muito mais.

- Eu: E o que você tanto fala durante a aula?

- João: Sei lá. É que às vezes eu falo uma coisa, aí ninguém escuta, aí eu quero falar de novo, aí ele fica com raiva de mim.

Com todo esse papo sociológico o que quero no final é entender por que caralhos fui vítima daquela violência na Índia. Reunir razões que expliquem o motivo daquelas pessoas cometerem tais ações. Pois bem, o que quis fazer aqui e deixar implícito no título daquele post é afirmar que a construção do gênero se relaciona ativa e diretamente na produção de violências. O suposto roubo ao casal russo, o linchamento ao suposto ladrão e meu quase linchamento tiveram um protagonista em comum: o sujeito homem. Mas como vemos diariamente nas notícias, isso é um padrão bem estável na sociedade. O homem, com raras exceções, é parte ativa e direta na produção das várias violências deste mundo contemporâneo. Isto, eu acredito, se deva em grande parte pela sujeição imposta aos indivíduos identificados como do sexo masculino. Em outras palavras, a origem da violência na sociedade contemporânea reside no próprio processo de formação da identidade masculina que é imposta de maneira coletiva e internalizada por esses sujeitos. Discordando dos Racionais MC’s, não acho que “Mulher e dinheiro tá sempre envolvido”, e sim os homens estão.

Para mais discussões sobre construções de masculinidades, especialmente negras, sugiro o filme “Moonlight: sob a luz do luar” (2016) e o artigo “Descolonizando masculinidades negras: Um olhar sobre a trajetória de Chiron no filme ‘Moonlight’” (Oliveira, 2022).

Referências

Foucault, M. (1995) O Sujeito e o Poder. In: Dreyfus, Hubert; Rabinow, Paul. Michel Foucault: uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, pp.231-249.

Oliveira, Pedro Cristiano Pinho de. “Descolonizando masculinidades negras: Um olhar sobre a trajetória de Chiron no filme “Moonlight”.” (2022).

Toledo, C. T., & Carvalho, M. P. de. (2018). Masculinidades e desempenho escolar: a construção de hierarquias entre pares. Cadernos De Pesquisa, 48(169), 1002–1023. Recuperado de https://publicacoes.fcc.org.br/cp/article/view/5496

  • Fotos tiradas em 2016-05-01

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