E a rotina transformou KP no meu lar e a Índia era o lugar onde morava. Ainda assim, não estava em casa, não estava no Brasil. Por mais que os dias virassem meses, as paisagens em plano de fundo, os conhecidos se tornassem amigos, as estranhezas não cessavam. A cada esquina me deparava com uma nova surpresa. Por vezes, isso era ótimo, me animava e me exitava. Por outras, me via cansado, apático e com saudade de casa, onde foi, até então, meu lugar de socialização. Onde me formei como um ser social. E não havia surpresas. Não como aqui.
É engraçado de quão pouco falamos da rotina, especialmente quando fazemos uma viagem, um intercâmbio. O mais interessante para a gente - e para os outros - é o extraordinário. A palavra em si já carrega uma forte noção de algo super interessante e é, na prática, seu próprio sinônimo. Mas é na rotina que nos constituímos como pessoas no mundo social, pelo menos eu entendo. As ações quase automáticas que fazemos quando nos levantamos ou vamos dormir, quando vamos cumprimentar nossos colegas de trabalho, ou como pensamos o que comer. Quando vamos? Como vamos? E com quem vamos? Talvez esteja indo para a noção de habitus de Bourdieu, mas realmente acredito, sem saber muito dessa parte de sua teoria, que essa repetição produz, expressa e reforça como encaramos a realidade social e como agimos sobre ela. Lembro de Maria Alice explicar que o habitus poderia ser entendido como uma ferramenta que nos possibilita viver no mundo sem ter que problematizar cada ação que tomamos, como escovar os dentes, escolher qual linha de ônibus tomar ou “decidir” se devemos comprar o último lançamento automotivo que aparece na TV. Funciona quase como um reflexo.
Então, acho que foi na rotina, no ordinário, talvez mais que tudo, a verdadeira catálise durante minha moradia na Índia que transformou a forma como encaro o mundo e ajo sobre ele, se realmente tal experiência me transformou. Essa é a diferença de uma viagem de feriado, de férias. Não há uma verdadeira criação de rotina durante as férias. Você acaba fazendo tudo para se esquivar de uma rotina que você teria sem estar em férias. Mesmo que você faça as mesmas coisas durante o tão sonhado e planejado período de descanso, essas coisas provavelmente não são as mesmas e na mesma ordem que você faz fora das férias. O que, então, não se caracterizaria como férias, as pessoas diriam, inclusive você.
Nesse intercâmbio, embora eu tinha (em tese) dia para chegar e dia para sair, eu não estava de férias. Eu realmente morei naquele lugar. Minha rotina não era a mesma de casa, mas ainda assim, uma rotina, um ordinário foi criado. Eu faço as mesmas coisas que continuo fazendo quase 10 anos depois. Me preocupo de não dormir muito tarde, me levanto antes do horário do trabalho, tomo banho antes de sair, vou trabalhar e volto para casa. E havia férias, como ainda há aqui. Finais de semana e feriados onde o extraordinário acontecia e era vivenciado. Mas lá, o extraordinário, a cada esquina, se apresentava no ordinário.
Neste blog, o extraordinário é a grande atração e talvez por isso seja tão incompleto, mas ainda assim ele é inescapável para descrever e explicar o impacto que essa experiência causou em mim.
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