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No. 15 - Da sujeição do homem

E mesmo entre o desespero e a impotência, pensei o quão irônico aquela situação era. Como poderia imaginar que após apenas alguns momentos de presenciar um linchamento, EU estava prestes a ser vítima de um? Pensei o quanto ficaria ensanguentado, tão igual aquele rapaz. E pensei que morreria. E foi a única vez (ou talvez segunda) que realmente achei que morreria. E no momento desse pensamento, por ele ou com ele, simplesmente aceitei que esse seria o destino. Ainda não havia ouvido a música de Gil, mas depois entendi perfeitamente quando disse que Não Tenho Medo da Morte / Tenho Medo de Morrer.

Os detalhes quase 10 anos depois, óbvio, me fogem. Mas em algum momento fui realocado no projeto/cliente da TCS que deveria ter ido desde o começo. Embora eu tenha ganhado uma mesinha, um computador e acesso a alguns cursos no escritório, eu ainda não tinha trabalho.

Minha rotina, então, era ir todos os dias para o escritório, caçar alguma coisa para fazer e voltar para Kondhwa, minha casa. Com todo esse tempo quase-livre (ainda tinha que me apresentar no escritório), voltei a fazer uma coisa que amo, mas que por vezes deixo de lado: LER. No começo de abril, comprei o livro “A sombra do vento” do Carlos Ruiz Zafón. Lembro de lê-lo em casa no meu tablet Nexus 7 enquanto tomava chá, sozinho, no meu apartamento em KP. Geralmente jazz acompanhava a leitura. Saudosos tempos de intenso sossego.

Ainda assim ou por isso mesmo, a rotina me causava tédio e desânimo. Estava do outro lado do mundo, mas sentia que não estava aproveitando. Precisava sair, precisava viajar. Para onde? Para Goa, óbvio! As ótimas experiências do ano novo deixaram em mim um gosto de quero mais. Havia agitado o pessoal para ir e acabou que alguns toparam. Por algum motivo, o qual não recordo, eu, Mostafa e Paulo fomos para Goa no feriado de 1º de maio, que caia em um domingo e ficaríamos até terça. Outros iriam encontrar a gente lá em algum desses dias.

Nós três ficamos em um hostel que era bem legal, tinha ar condicionado, era perto da praia e vendia uma cerveja bizarramente barata. Aliás, tudo era barato, inclusive o restaurante na praia era muito barato se comparar com o que pagamos no Brasil. Nós encontramos o restante do pessoal da TCS no domingo mesmo e foi simplesmente ótimo. Ficamos na praia o dia inteiro e bebemos horrores noite afora. No dia seguinte, só ficamos nos três que estávamos no hostel. Acabamos fazendo amizade com uma californiana e depois com um inglês lá mesmo no hostel e passamos o dia e a noite juntos.

À noite, ficamos em um restaurante na praia, um pouco mais distante daquele que ficamos no dia anterior, que era mais perto do hostel. Mas esse ainda ficava perto o suficiente para voltarmos a pé. Lembro que o pessoal do restaurante deixou a gente tocar música lá, e o inglês de ascendência bengali se surpreendeu que eu conhecia The Kooks.

O clima começou a ficar um pouco estranho quando um casal de russos apareceu no restaurante bem abalado. A moça estava chorando e entendemos depois que eles haviam sido assaltados. Algum tempo depois, vimos um grupo se formando mais para a beira da praia. Esse grupo, maioria (se não exclusivamente) de homens, estava batendo em um rapaz. Eles amarraram este rapaz em uma das cadeiras do restaurante e começaram a agredi-lo violentamente. O rapaz era o suposto ladrão. Com a anuência do dono do restaurante, o grupo e inclusive o Mostafa, continuaram o espancamento ao rapaz. Fiquei muito constrangido, mas não tomei nenhuma medida mais enérgica. Tentei argumentar com o dono do restaurante, pedir para o Mostafa parar, mas eles continuaram por algum tempo e depois deixaram ele, já bastante ensanguentado, amarrado na cadeira.

Algum tempo depois fomos em direção ao hostel, pela praia mesmo. Estava muito escuro e com quase ninguém por lá. Chegando na entrada para o caminho ao hostel, decidimos fazer um skinny-dipping. Afinal, já estávamos beem malucos e não tinha ninguém por perto. Pelo menos era o que pensávamos.

Em algum momento desse mergulho pelado à luz do luar, percebemos que o restaurante que ficamos no dia anterior estava ligeiramente iluminado. E quando estávamos saindo do mar, vi que dois rapazes estavam conversando agressivamente com o Paulo. Reconhecemos que um deles era um dos garçons que estava nos atendendo no dia que passamos lá. Cheguei perto e tento conversar com eles para ver o que está acontecendo. Começo a entender que eles estavam insinuando que havíamos estuprado a menina que estava conosco. Eles dizem que ela estava chorando, dizendo que estávamos mexendo com ela. E nos questionam por que estávamos pelados. Eu tento argumentar que não vi ela chorando e que vou entender com ela o que aconteceu. (será que alguém do nosso grupo realmente mexeu com ela?, como a pensar). No meio dessa discussão, o resto do grupo foge, mas eu fico. Os dois rapazes me prendem com os braços e me dão golpes com as mãos e pés. Penso aqui que terei o mesmo destino daquele rapaz. Penso que realmente vou morrer.

De alguma forma, consigo me desvencilhar deles e fujo o mais rápido que posso em direção ao hostel. Grito com toda a força dos meus pulmões “HELP!” ao mesmo tempo que corro como nunca havia corrido na minha vida, como minha vida realmente dependesse disso. Ninguém veio até mim, mas finalmente cheguei no hostel e me encontro com o grupo. Estavam sentados e atônitos. E eu, assustado, mas também com raiva deles por me deixarem. Como poderiam me deixar lá? Ainda estávamos em vantagem, tinha apenas dois deles e éramos pelo menos três homens.

Discutimos se deveríamos chamar a polícia. O dono ou gerente do hostel conversa conosco e tenta diminuir o acontecido, dizendo que não precisamos chamar a polícia e que possivelmente isso só iria piorar a situação. A californiana diz que não entendeu o que aconteceu, que conhecia o cara que nos agrediu. Ela demonstrou estar confusa que não entendia o por que ele havia feito isso.

Depois de um bom tempo discutindo, acabamos não chamando a polícia e fomos dormir. Ou pelo menos tentar. Meu pensamento estava a mil e várias sensações de agonia, raiva e impotência viam a minha mente. Penso quanto aquele país era atrasado e o quanto estava odiando estar ali. Depois de algum bom tempo, consigo pegar no sono e durmo.

No dia seguinte, vamos fazer o checkout que já era previsto. Conversando com a californiana no café da manhã, ela nos conta que foi lá no restaurante e confrontou o cara que nos agrediu. E foi isso. Nos despedimos dela, e nos despedimos de Goa com um último passeio. Ainda estava transtornado com o que havia passado e não estava nada curtindo o momento, apesar de Mostafa e Paulo estarem mais tranquilos. O que, na verdade, me deixava ainda mais irritado. E ainda hoje me irrita o fato de eu nunca ter falado sobre o quão frustrado e decepcionado estava com eles.

  • Fotos tiradas em 2016-05-01, 2016-05-02, 2016-05-03

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