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No. 1 - O Porquê - Parte I - Sonho meu

Com este blog, quero botar pra fora, organizar e tentar entender algumas coisas que estão na minha cabeça há um bom tempo sobre minha viagem à Índia e para o continente europeu mas, principalmente, entender mais sobre mim. Desde que voltei com milhares (literalmente) de fotos na bagagem - no final de 2016 (!) - tinha muitas ideias do que gostaria de escrever sobre a experiência, mas desde então essa ideia nunca saiu do papel. Quando a falta de tempo não era uma desculpa, as ideias nunca pareciam se expressar de um jeito que eu realmente tinha vontade de trabalhá-las e muito menos de publicá-las. O formato das fotos, as palavras, sua disposição no texto, etc etc, nada parecia realmente interessante.

Agora, minha insônia e minha procrastinação me dão um novo incentivo para fazer isso virar realidade.

E para começar a falar sobre a experiência, acho que é interessante expor um pouco sobre a motivação de me aventurar na Índia. Neste primeiro post, vou ser um pouco mais preguiçoso e aproveitar um trabalho que fiz na faculdade que tenta explicar parte da motivação. E, claro, vou procurar deixar de um jeito para que fique minimamente interessante a leitura, principalmente para mim, o leitor que mais importa.

O título do trabalho: Entre o devaneio e a consumação: um relato anterior de uma experiência turística na Índia. Começo o ensaio contando um fato curioso sobre mim. Em algum momento durante minha pré-adolescência, eu desenvolvi uma certa fascinação (beirando a obsessão) sobre o país Canadá. Sim, o irmão “cortês” dos Estados Unidos. O porquê? Difícil entender exatamente, mas muito provavelmente pelos filmes e séries de TV. O Canadá, para mim, era a Meca da civilização. O que tinha de melhor em termos de qualidade de vida. Aliás, muito melhor do que seu irmão, que estava sempre envolvido em alguma confusão (interna ou externa). E claro, meu sonho de adolescente era fazer um intercâmbio, High School lá. Em Vancouver, de preferência. Porém, como pobre, isso não aconteceu.

Bem, depois de formado no Ensino Médio fui fazer faculdade. E trabalhar, para pagar a faculdade. No meu segundo emprego trabalhava como office boy da importadora de um cara, de um conhecido de minha mãe. E não sei sei o quanto isso é comum, mas depois de algumas semanas trabalhando lá, uma sensação arrebatadora de ansiedade baixou em mim. É difícil explicar o que senti naquele momento, mas a sensação era de que minha perspectiva de vida havia sido reduzida numa coisa claustrofóbica de tão pequena. Basicamente, uma vida sem sentido. E eu ainda ia completar 18 anos! Contudo, uma ideia começou a se formar naquele momento, um feixe de luz naquele túnel estreito. Uma ideia de viagem, porém não mais para o Canadá, mas para algo que fosse realmente significativo. Algo maior. Foi então que passei a ter um novo fascínio: a viagem Mochilão. Era uma viagem bem mais barata. Uma viagem em que poderia conhecer inúmeras pessoas, culturas e lugares diferentes e incríveis. O destino escolhido naquele momento foi a Europa. Era o nascimento (ou renascimento) de um grande sonho. Mas não seria novamente só um sonho, seria um objetivo, com um plano de verdade. Quando tivesse um trabalho melhor, iria economizar, fazer uma poupança, planejei. Mas como meu salário na época só dava para pagar a faculdade, selei, então, um acordo comigo mesmo: o plano que elaboraria para a concretização deste objetivo seria disciplinarmente seguido. Para firmar este auto-acordo, compraria um mapa e um guia turístico da Europa. E comprei. Pronto, compromisso firmado. Tinha plena convicção que o mochilão iria acontecer, mesmo que naquele momento possuísse apenas esses dois itens, além da vontade, para fazer isso virar realidade.

Uma coisa que ressaltei no trabalho foi a ideia de que o turismo pode se oferecer como uma solução para uma crise de identidade, a partir de sua natureza como um item de consumo. Isso foi o que entendi dos sociólogos Colin Campbell e Lívia Barbosa no que eles escreveram no livro “Cultura, consumo e identidade”. Reforcei meu embasamento teórico citando Carlos Steil e Sandra Carneiro do artigo “Peregrinação, turismo e nova era: caminhos de Santiago de Compostela no Brasil” quando dizem que turistas-peregrinos “refletem sobre sua experiência e constroem significados para suas vidas.”

Colocando de modo mais simples e direto, eu entendo que estava querendo me encontrar, assim como Cartola cantava. Aquela vida que se apresentava era assustadoramente desinteressante para mim. Isso foi em 2012. O PIB havia encerrado o ano com um crescimento de 0,9% em relação ao ano anterior. A taxa de desemprego no final do ano havia fechado no menor nível histórico, 4,6%. O Brasil macroeconomicamente ia relativamente bem.


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