Não lembro de ter alguma hesitação para aceitar a vaga. Provavelmente devo ter tido algum frio na barriga, mas estava muito decidido. Aquilo iria acontecer.
Inicialmente era para eu ter começado já em novembro, porém como eu ainda estava terminando a São Judas, só poderia viajar em dezembro. Eles aceitaram. Era isso. Realmente iria acontecer.
Esse período entre o aceite da vaga e pegar o avião foi tranquilo na maior parte do tempo. Ainda estava concentrado em passar nas provas da São Judas e fazer os trabalhos da AIESEC. Apesar de eu ser uma pessoa ansiosa desde criança, desta vez não estava sofrendo (muito) por antecipação. Exceto quando tinha que providenciar algo burocrático para a viagem, mantinha minha mente longe da Índia. Por isso, também não anunciei para muita gente que faria o intercâmbio. Falei para alguns amigos e para meus pais. Mas, claro, a palavra foi se espalhando e depois quase todo mundo que me conhecia já sabia.
Quando conversava com as pessoas sobre a viagem, apesar de não querer falar sobre, percebia que elas tinham um misto de estranheza e curiosidade sobre a Índia. E afinal, por que a Índia? O que tem lá? Bem, foi com esses posts pré-viagem que tentei responder a primeira pergunta e, com evidências empíricas (!), vou tentar responder a segunda pelos posts seguintes. E, sinceramente, não lembro o que respondia na época, rsrs. Mas lembrei que também estava hospedando (meus pais na verdade, né) um intercambista colombiano, o Santiago. Então acho que o pessoal já estava se acostumando com as coisas estranhas que eu fazia.
Finalizei as provas na São Judas, tirei passaporte e visto. Burocracia check.
Festa de despedida? Festa de despedida. Fiz uma festa de despedida, apenas família. Até chamei uns amigos, mas só o Lucão colou (cof, cof). Tudo bem, minha família já é mais que o suficiente e o que mais me importa. (sim, tô sendo cafona, mas é honesto). Ficam as fotos (com bônus da festa de batizado do meu priminho Gu que rolou no dia seguinte).
Nos últimos dias de Brasil, sim estava ansioso. E quando fico ansioso tendo a procrastinar. Minha mãe me ajudou a comprar roupas, malas e acessórios para a viagem. Ia deixar para última hora e provavelmente não iria arrumar essas coisas. Ela me ajudou.
Agora sim, tudo certo. A passagem estava comprada. Iria voar pela primeira vez de Ethiopian Airlines nas primeiras horas do dia 17 de dezembro. Era uma quinta-feira e o sol ainda não havia aparecido. Primeira parada: Addis Ababa, Etiópia. Única escala antes de finalmente pousar em Mumbai, o que iria acontecer só no dia seguinte, às 7h15 da manhã (horário local).
Meus pais me levaram ao terminal. Não muito longe de casa, Guarulhos. A despedida deles foi uma sensação estranha. Depois que passei do portão tive o sentimento que agora era de fato uma passagem. Estou realmente sozinho. Estou por minha conta e responsabilidade. Eu sou filho único e sempre me senti muito protegido, o que na prática gerava um sentimento cômodo de segurança durante meu amadurecimento, mas ao mesmo tempo incômodo pela sujeição e obediência imperativa constantes.
E fazer aquela passagem, passar a segurança, despachar as malas e entrar no avião teve gosto de fim da infância. Não havia mais alguém para me proteger, já não havia mais aquela camada confortável de segurança sobre os atos dos outros e dos meus próprios atos. Mas agora, teria uma liberdade inédita de fazer o que eu quiser. Mesmo que isso fosse prejudicial para mim ou para os outros.
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